quarta-feira, 21 de março de 2007

Sai daí, neguinha!

Sai pra lá, neguinha! A menina atravessa a rua, segue até o ponto de ônibus. A mochila parece maior do que ela, de tanto apetrecho pra escola. Do outro lado, outra menina aguarda o ônibus, com seu caderno na mão, a chegada do ônibus. A fila é grande, e começa o aperto do espreme-passa-sobe. As meninas e meninos se apertam pra entrar . A da mochila vermelha parece não caber em lugar nenhum. A do caderno, em sua magreza e negritude,vai se esgueirando. Os cotovelos brancos vão apertando e batendo na menina do caderno solitário. A da mochila dá-lhe um ligeiro empurrão, com o xingamento: - Sai pra lá, neguinha! A menina prende os beiços, não fala. A raiva se enrosca lá dentro, pra explodir noutra hora. - Sai pra lá, neguinha! Fica-lhe a machucar os ouvidos meninos, a saliva engrossa, raiva do vermelho da mochila. Naquela manhâ, a menina do caderno nem tomara café, havia só um pão na mesa, nada de queijinho nem biscoitinho. Felizmente, o riso da mãe tinha o mérito de acalmar o coração da menina. Um dia ela teria todos os queijinhos e pães para seus filhos negrinhos. Um dia ninguém a mandaria sair, porque ela teria o olhar forte, saberia responder, saberia lutar. Ah! Ia pedir a mãe pra aprender capoeira. Saberia lutar e poderia derrubar todos os inimigos dos pretos.

PRECONCEITO É UMA FACE DA VIOLÊNCIA. Não podemos admitir atitudes discriminatórias!

OBSERVAÇÃO: Esta postagem faz parte da BLOGAGEM COLETIVA proposta por LINO REZENDE, no dia de luta contra a discriminação racial: http://www.linoresende.com.br/blog/

25 comentários:

Tânia disse...

A doce Ceci o que tenho percebido e de forma cruel é que nos dias de hoje tanto preconceito, discriminação e esteriotipo é de forma dissimulada...
Uma vez escrevi que eramos uma nação de misturados, devido a rica miscigenação com o passar dos tempos...
Aliás adoro esta mistura, ela reflete quem somos hoje, todos brasileiros, todos homens, todos seres humanos.
Beijo grande.

Poliane disse...

É Ceci... É revoltante, né??
Eu fico tão triste em ler relatos como esse e fico muito, mas muito pra baixo...
Blogar sobre esse tema me deixou pensativa demais e acho que estamos pouco a pouco chegando lá... pena q vai demorar para chegar!!
Enfim...
Grande post!!

Jota Effe Esse disse...

Quando é que vamos aprender que não existem raças humanas, mas a raça humana? E esta é negra? Os brancos, os amarelos, os vermelhos... são mutações dos africanos ao emigrarem para outros climas. Quem tem preconceito de cor, além mau caráter, é um ignorante. Meu beijo.

Elizabeth disse...

É Ceci,
Eu sou do tipo não por ser negra, mas envergonho-me da raca humana, pelo fato de um dia terem feito dos negros escravos. Por alguns ignorantes ainda se acharem no direito de serem melhores uns que os outros por terem um tipo de pele diferente.
O preconceito é pura ignorancia, mas eles são tão idiotas ou cheios de si que não conseguem ver.
No caso foi a neguinha, poderia ter sido o paraiba, o bichinha , o perneta, o caolha...
Crianca não nasce racista, aprende as licões dentro da própria casa, com os familiares.
Mas a neguinha , além de neguinha era pobre e era crianca sem forcas para se defender.
Belissimo o seu texto, quem leitura de textos como o seu abra a cabeca de outras pessoas , pelo menos de algumas para que possa fazer alguma diferenca.
Eu ia escrever sobre o preconceito mas acabei sem tempo. Jáescrevi uma vez e tornarei a faze-lo sobre o trato as empregadas domésticas que são tratadas por milhares piores que cachorros, mas isto sera assunto para a minha volta.
Beijos

Saramar disse...

Realmente Ceci, o preconceito gera vioilência, dor e morte.
Acredito que só a educação poderá romper esse cilco de dor.

beijos

dácio jaegger disse...

Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. E assim, essa observação do homem em relação à natureza da perseverança da força organizada em meio não animal, homem no meio, vem a calhar.É necessário que se escreva, que se fale, que se esculpe, televise, a abominação e condenação do preconceito seja qual for a cara que ele tenha. E aqui na blogosfera a onda conscienciosa tem sido salutar como conduta "blogal".

katia disse...

Parabéns pelo texto. Disse tudo. Boa semana. Bjus

Lino disse...

Muito bom o reflexo do preconceito no nosso cotidiano. De forma singela, você acaba mostrando como uma pessoa pode ser machucada e marcada para toda vida devido à intolerância.

Sam disse...

Como disse o Lino, atitudes desumanas podem mesmo nos marcar pra vida toda.
A discriminação é crime...e maior crime ainda qdo seu alvo são crianças q não entendem pq aquilo acontece.
Não podemos mesmo admitir isso.
Beijo

Loba disse...

Ué! Cadê meu comentario????

Loba disse...

Ah que pena! Mas eu dizia, minha amiga, que um dia eu pensei mudar o mundo à minha volta. Descobri que é infinitamente mais dificil do que imaginamos. Preconceito é raiz que cresce dissimulada por dentro do solo. Está em todos, mas poucos o percebem.
Mas há que se ter esperança, né? E acreditar que nossos professores um dia possam vencer seus próprios preconceitos e formar futuros adultos melhores do que somos hoje!
Beijos querida. Muitos

Sam disse...

Olá, Ceci :)
Vamos manter contato sim...é sempre muito bom dividir idéias.
Vou te linkar e voltarei sempre aqui.

Beijo e ótimo final de semana

ana. disse...

Dificilmente poderemus acabar c o preconceito...ms é smepre bom manifestarmos nossas indagações.
Beijos Poéticos.
;**

AdéliaTheresaCampos disse...

Um protesto, um alerta... sem perder a ternura. Ceci, como você é doce!
Beijos, carinho.

rubo medina disse...

Preconceito, preconceito... o que podemos fazer. Ele existe...
Abraços, Ceci. Desculpe meu sumiço.
http://napontadolapis.zip.net http://dulcineia.blogspot.com

Loba disse...

Hoje só vim trazer um jardim de girassóis.. e muitos beijos!!!!

Lela disse...

Me encanta, Ceci, a negritude, que mesmo não carregando em minha pele, carrego em minha alma plena da História da minha Bahia. Não silenciar diante do preconceito é possibilidade de nos incluirmos a todos na cidadania. Belo texto. Meu carinho pr'ocê.

Dora disse...

Ceci! Um dos temas sobre os quais mais escrevi e acho que ainda escrevo é sobre "atitudes discriminatórias"! Vivi quase 25 anos de vida levando meu filho na APAE e em todos os lugares públicos em que eu podia...Já falei muito sobre isso, e já sofri na pele, devido ao problema do meu filho, essas discriminações.
Hoje, prefiro ler você e quem se expressa sobre o problema do preconceito, seja qual for ele...
Beijos muitos.
Dora

dácio jaegger disse...

Só pra lembrar que já foi muito pior. Os negros foram escravos e tratados como bichos e eram mortos a bel prazer. Mulheres eram lugares de descarregos sexuais. Crianças eram melhor tratadas, mas objetos, futuras máquinas. Tem-se que atingir os níveis ideais do negro e dos que os prezam e carregam cores diferentes na pele.Porque a genética não permite, hoje, que alguém minta...rs. É questão de tempo... antes dos maiores efeitos do aquecimento global, a melananina tem seu valor./Abraço

Sam disse...

Oi, Ceci :)
Passando pra deixar um beijo.
E aí? Vamos atualizar essa casa e contar as novidades???
Ai ai ai...rsss
Beijão, flor

Crys disse...

"Não devemos ser escravos de um padrão, de uma época, de um costume. Aprendendo a pensar por nós mesmos, experimentamos a liberdade." Alguém disse isso, não lembro, mas é uma grande verdade. Outra, tá na hora de atualizar, né?rs... Bjos
(não to conseguindo comentar....help!!!)))

Weder Soares disse...

Ceci, feliz em sentir a brisa da valorização do ser enquanto SER em seu cantinho poético.
Meu carinho.

Claudinha disse...

Oi, vim conhecer a nova casa! Ficou jóia!
Excelente seu texto contra o preconceito racial. Se eu vejo uma cena destas eu não sei o que sou capaz de fazer. Abominável!
Beijos!

Fabiana disse...

Um 'sai pra lá, negrinha' despertou-me a vontade de lutar desde cedo ... como mulher, negra e nordestina sei bem os percalços do dia-a-dia que já precisei enfrentar para me considerar, hoje, o ser humano vitorioso que sou e em constante evolução...

obrigada pelo texto!

da sobrinha.. Fabiana

Anônimo disse...

o que eu estava procurando, obrigado