terça-feira, 4 de dezembro de 2007

PEDAGOGIA E AMBIENTE: CADÊ CIDADANIA?

Uma coisa que sempre me traz um sentimento de raiva e impotência é quando entro numa escola e vejo as carteiras quebradas, cadeiras mal-engendradas, mesas aos pedaços, descascadas. Pergunto: o que podem as crianças que freqüentam este ambiente aprender como perspectivas de vida? Estudei em uma escola rural, tinha apenas uma grande mesa, e bancos grandes, rústicos, de madeira serrada pelo carpinteiro do povoado. Conhecíamos a origem do banco, isso fazia uma diferença para nós, meninos e meninas de idades e desenvolvimento bem diferentes. Não havia televisão mostrando o desperdício das cidades, a destruição da vida natural. Não havia nada disso. Então nós éramos muito felizes nos bancos de madeira rústica, balançando as pernas, e estudando a tabuada para a “sabatina”. O sanitário era do lado de fora, como são na zona rural, mas eram limpos e lavados todo dia, para que a gente pudesse usar sem constrangimento. Nas escolas públicas onde tenho entrado nestes anos, continuo a ver cada vez piores as condições ambientais do alunado. Lembro quando o metrô foi inaugurado no Rio: a reação das pessoas foi e é bem diferente de entrar num trem quebrado, num ônibus sem banco, com os espaldares quebrados, ou com acento rasgado, com o chão sujo, as baratas correndo pelas janelas.... Muito diferente de entrar num ambiente limpo, com estímulo ao asseio, ao respeito ao objeto, ao veículo, à vida. É um sentimento que tenho fundo, deve ser assim para os outros humanos. O ambiente limpo, bonito, traz uma onda de prazer. Na sujeira e degradação, qual é o sentimento? Aí, vêm os ministros, secretários, diretores de departamento de educação e pensam e pensam, e formulam mil e um projetos, mas nada de resolver a questão dos ambientes da escola: aqui, em plena capital paraibana - bem como no Rio de Janeiro, São Paulo, Amazonas, Acre, (é só ir copiando as cidades do mapa) - encontramos escolas com instalações sanitárias em miséria, com salas em miséria, com corredores escuros, cadeiras quebradas, mesas escandalosamente impróprias para o uso humano. Poderiam estar melhor, poderiam estar consertadas, limpas, compor um ambiente para receber os alunos em festa no início do ano, dar a eles as boas vindas, com algo bonito, limpo, adequado. Mas é uma coisa sem fim, um mal sem limite. Não tem ministro, nem secretário que visite as escolas de repente, se visitassem sairiam mal da cabeça. Se fossem aos banheiros da escola ou sentassem por 10 minutos diante do quadro, naquelas cadeiras que vi na Aldeia Forte, e em outras aldeias indígenas, poderiam dispensar diversos projetos farjutos e investir no ambiente escolar. Tanto treinamento das professoras, e tanta falta de respeito com o ambiente onde trabalham nossas educadoras, na grande maioria mulheres, abnegadas, dispostas a tudo para melhorar o resultado de seu trabalho. Só que a responsabilidade pelo ambiente, pela adequação dos equipamentos não é delas, mas do Estado brasileiro. Onde está a coragem para tratar a questão da qualidade do ambiente educacional? Sabemos que essa situação não é privilégio do nordeste, nem das aldeias. Trabalhei 30 anos em escolas públicas do Rio de Janeiro, e quantas vezes tivemos de nos cotizar para resolver a situação de um banheiro quebrado, quantas vezes nos reuníamos para não dar aulas por absoluta falta de condições sanitárias na escola? Gente, é um escândalo isso. Não é a pobreza que fere, mas a contradição que a escola mostra. Enquanto se esbanja dinheiro em projetos faraônicos, e na ladroeira, não se resolve algo tão simples como o direito de sentar e estudar em um ambiente adequado. Não falo das metodologias, nem mesmo do absurdo pequeno salário reservado para os educadores, falo do mínimo respeito à educação, das mínimas condições de aprendizado, de estímulo à curiosidade, da desejável alegria nos olhos dos meninos quando entram na escola. Garanto que se o Estado brasileiro desse sinal de respeito aos educadores, as atitudes deles também seriam outras. Se o que vale na governança é a falta de amor, de respeito e cortesia, então a doença se espalha com facilidade, empestando o país. Gostaria de fazermos uma campanha pela dignidade do ambiente escolar, quem sabe os meninos e meninas poderão sair dali com outras idéias e ideais? Podemos tentar? Então, cada um escolha um bairro de sua cidade e vá visitar a escola pública fundamental que está pertinho de você. Se não ficar convencido, visite mais duas ou três. Vejamos o resultado desta visita que não é anunciada, nem é do secretário de educação.

12 comentários:

Luiz Célio disse...

Bastante lúcidos os questionamentos e reflexões da CECI. Sou professor universitário e essa também é uma realidade na Universidade. Tenho visto uma quantidade infinda de “cacarecos” servindo de mobiliário escolar. Ao final de cada semestre letivo a quantidade de carteiras escolares enviadas para manutenção por si só já define um quadro caótico. É igualmente um termômetro da falta de organização e do (des) zelo pela coisa pública por parte dos discentes. Certamente, são resquícios do aprendizado da escola fundamental e do ensino médio. Há necessidade de encetarmos uma campanha sobre uso racional e conservação do mobiliário escolar. Leciono na UEPB a disciplina Psicologia da Educação, estou organizando uma pesquisa sobre condições de trabalho e aprendizado nas escolas de ensino fundamental, a ser efetivada já no semestre 2008.1. Conto com sua parceria para divulgar o resultado dessa pesquisa também em seu blog.

Magui disse...

A responsabildiade dos diretores e professores é importante.Falta liderança porque onde tem um lider os alunos não depredam.O que adianta verba para deixar tudo bonito se não há orientação,debates, conversas e propostas para cuidar do que é público ou até do privado.Com o passar do tempo fica assim , aprecendo qeu não tem volta.
Como vc não tem a opção outros vou usar o meu blogspot.
http://somagui.zip.net

Claudinha disse...

Parabéns pelo texto Ceci. Saudades de você. Vejo isto aqui bem de perto,embora não trabalhe em escola pública ou com crianças, mas está bem diante dos olhos. O pessoal daqui se reuniu, pais carpinteiros, ma~es fazendo pão, pais pintores e assim, promoveram uns dias de mutirão. Ficou uma beleza, mas empouco tempo, vândalos destruíram tudo. Vi as carinhas deles diante do ocorrido, estão fazendo de novo, mas nunca via parar. Até quando?
Beijos!

Ceci disse...

Amigo Luiz Célio, Pode contar comigo na divulgação de sua pesquisa. Mantenha-me informada, esse tema é muito importante, a relação com os objetos de uso na escola tem sido de desprezo. Isso precisa mudar. Meu grande abraço.

Ceci disse...

Claudinha, será que as depredações organizadas quando a escola está cuidada ACONTECE POR ENCOMENDA DOS DONOS DA ESCOLA PRIVADA? ENTÃO, CASO DE POLÍCIA?
BEIJOS

SAM disse...

A todos os que demonstraram interesse pela campanha do Dia dos Direitos Humanos, no post de hoje do blog poderão encontrar mais detalhes sobre o tema.
Conto convosco!
Obrigado.

benechaves disse...

É uma pena a educação neste país! E a saúde também! As escolas estão realmente se acabando. E não tem quem tome conta. As secretarias não ligam muito, o estado é precaríssimo. O que existe mesmo no Brasil é muita gente roubando. Acho que roubaram a dignidade deste país, assim como tb a sua ética.
É uma lástima tudo isso!

Um beijo de desabafo...

Anônimo disse...

Mesmo sem visitar nenhuma escola, assino em baixo de tudo o que disseste sobre a depredação da escola pública, pois conheço o problema há muitos anos. Falta autoridade administrativa, por que as escolas particulares não são depredadas? Lá existe administração. Jota Effe Esse.

Ceci disse...

JOTA, OLHA ESSE FILME: OS PAIS DE ALUNOS DE ESCOLAS PÚBLICAS SE JUNTAM, FAZEM MAIOR ESFORÇO PARA RESTAURAR MÓVEIS, EQUIPAMENTOS, TELHADOS, PAREDES, JARDINS E PÁTIOS DE ESPORTES. A escola fica uma beleza e aí.. ocorre uma depredação, não se sabe por quem...? Se a depredação fosse numa escola particular... quem seria? Então, penso que há um jogo de interesses, e de atitudes criminosas, para que a escola pública seja alvo de rejeição, tanto por parte dos alunos, como da sociedade. INTERESSES ECONÕMICOS. CONHEÇO DIRETORES BONS,DIRIA EXCELENTES, QUE FICAM ATADOS DIANTE DE TAL DESPREZO DA SOCIEDADE. FICA-SE OLHANDO O BARCO AFUNDAR? DEVERÍAMOS EXIGIR A APURAÇÃO DOS FATOS, A RESTAURAÇÃO DA ESCOLA POR PARTE DOS CRIMINOSOS, FOSSEM QUEM FOSSEM. ISSO JÁ SERIA UM COMEÇO.
MEU BEIJO.

Pat disse...

Ceci,
Realmente esse descaso com o cuidado com o ambiente escolar é uma vergonha. Nos últimos dias tenho debatido esse assunto com um amigo que quer se tornar vereador. Separei para ele uma matéria sobre as escolas da Finlândia, primeira no mundo em qualidade educacional. O artigo destacava que uma das principais preocupação lá é tornar as escolas aconchegantes.
Abraço
pat

Osc@r Luiz disse...

Sabe, Ceci,
estou me exonerando da Educação Pública agora, dia 31.
É lamentável o ponto que chegou.
Um beijo!

Chuvinha disse...

Infelizmente quem destrói é quem utiliza a escola pública. Escolas em, comunidades pequenas, no interior do Estado são cuidadas pela clientela. Nos grandes centros a impunidade se faz presente...