quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

O FAZER CERÂMICO

"No ato de amassar o barro e dele ver surgirem formas, há uma espécie de magia e um aprendizado constante. São formas que de algum modo estão impressas em minhas lembranças, presentes num tempo e lugar que poderia ser em qualquer recanto do Brasil, na Algéria, Gran Canária ou Afganistão: uma contadora de história para embalar a noite estrelada, uma rezadeira para amenizar a dor de crianças e velhos, uma professora para alargar a visão, uma filha que trabalha duro para alimentar sua velha mãe, uma louca que se perde entre delírios, uma menina faceira com sonhos mil... São personagens vivos de todos os tempos na vida dos povos. O barro mudou minha vida, minha rotina, meu pensar e minhas perspectivas na maturidade. Este texto foi produzido na OFICINA PEDRA DO REINO, durante o desenvolvimento do projeto da Exposição Caminhos do Barro, em João Pessoa/PB

domingo, 9 de dezembro de 2007

O PAPALAGUI

“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.” Convidada por Sam, do Fênix Ad Aeternum para a blogagem coletiva pelos DIREITOS HUMANOS, trago trechos do livro O PAPALAGUI*, pensando no Art. 1° da Declaração Universal dos Direitos Humanos, acima transcrito. *Papalagui traduzido literalmente, é aquele que furou o céu. O primeiro missionário europeu a desembarcar em Samoa chegou num veleiro branco. Os nativos, vendo o veleiro de longe, pensaram que as velas brancas fossem um buraco pelo qual, furando o céu, o europeu tinha aparecido.” “O Papalagui pensa de modo estranho e muito confuso. Está sempre pensando de que maneira uma coisa pode lhe ser útil, de que forma lhe dá algum direito. Não pensa quase nunca em todos os homens, mas num só, que é ele mesmo. Quem diz: “Minha cabeça é minha, não é de mais ninguém”, está certo, está realmente certo, ninguém pode negar. Ninguém tem mais direito à sua própria mão do que aquele que tem a mão. Até aí, dou razão ao Papalagui. Mas é que ele também diz: “A palmeira é minha”, só porque ela está na frente da sua cabana. (...) “Lau” em nossa língua quer dizer “meu” e também “teu,” é quase a mesma coisa. Mas na língua do Papalagui (...) “meu” é apenas, e nada mais, o que me pertence; “teu” é só, e nada mais, o que te pertence. (...) Para ninguém pegar em coisas que o outro declarou como suas, determina-se com exatidão, por meio de leis, o que pertence e o que não pertence a certa pessoa. E existem na Europa, homens que mais não fazem do que impedir que estas leis sejam violadas, ou seja impedir que se tire do Papalagui aquilo que ele pegou para si. . Desta forma, o Papalagui quer dar a impressão de que, realmente, garantiu um direito, como se fosse Deus quem lhe tivesse definitivamente cedido o que tem. O Papalagui precisa fazer leis assim e precisa ter quem lhe guarde os muitos “meus” que tem, para que aqueles que não têm nenhum ou têm pouco “meu” nada lhe tirem do seu “meu”. De fato, enquanto há muitos pegando muitas coisas para si, há também muitos que nada têm nas mãos. Nem todos sabem os segredos, os sinais misteriosos com os quais se consegue ter muitas coisas, (...) que nem sempre se concilia com o que chamamos de “honra.” (...) Se pensasse direito, o Papalagui saberia que coisa alguma que não sejamos capazes de segurar nos pertence; saberia que, no fundo, nada há que possamos segurar. E também veria que se Deus nos deu a sua grande casa é para que todos nela encontrassem lugar e alegria. E ela é bastante grande, tem para todos um lugarzinho claro, uma alegriazinha; para todos existe certamente onde ficar debaixo da palmeira, um lugar onde colocar os pés, onde parar. A palmeira deixa cair as folhas e frutos que estão maduros. Mas o Papalagui vive como se a palmeira quisesse retê-los. “São meus” Não os tereis”, jamais deles comereis!” Mas como faria então a palmeira para dar novos frutos? A palmeira é muito mais sábia do que o Papalagui. Também entre nós existem muitos que possuem mais do que outros. É certo também que honramos o nosso chefe que tem muitas esteiras, muitos porcos, mas é só a ele que honramos, e não às esteiras e aos porcos. Estas coisas fomos nós mesmos que lhe demos de presente, como alofa, para mostrar-lhe o nosso contentamento, para louvar a sua grande coragem, a sua grande inteligência. Mas o Papalagui o que honra são as esteiras e os porcos em quantidade que seu irmão possui; pouco lhe importa sua coragem ou sua inteligência. O irmão que não tem esteiras nem porcos poucas honras recebe, ou não recebe honra alguma. Como as esteiras e os porcos não vão por si mesmos á procura dos pobres e famintos, o Papalagui também não vê razão para levá-los aos seus irmãos. O que ele respeita não são os irmãos, mas sim, as esteiras e os porcos; daí porque os guarda para si. Se amasse os irmãos, se os honrasse, se não vivesse lutando com eles pelo “meu” e pelo “teu”, levar-lhes-ia as esteiras que não usasse para que eles participassem desse grande “meu”. O Papalagui daria aos irmãos a sua própria esteira em lugar de atirá-los à noite escura. (...) Se Deus colocou muitos bens na mão de um homem foi para que repartisse com seu irmão.” //////// PAPALAGUI, comentários de Tuiávii, chefe da tribo Tiavea nos mares do sul. Recolhidos por Erich Scheurmann. Ed. Marco Zero, Traduzido diretamente do alemão “Der Papalagi” por Samuel Penna Aarão Reis, pág. 5, 55 a 58.Também participam desta blogagem coletiva : Lino Resende, Eduardo P. L., Du, Silvano Vilela, http://oscar-vg.blogspot.com/Luiz, Sérgio/Histórias & Cotidiano, Ronald, Cejunior, Neptuna, Chuvinha, Daniel Fernandes, Dragonfenix, Afrodite e Vénus, Ru Correa, Titão, Ali_Se, Fábio Mayer, Samantha Shiraishi, Cássia Valéria, Janmedeiros, Fernando, Chicoelho, Andréa Motta, Jeanne, Adriana, Marco, Caco, Menina Malvada (Ou Kaka), Luci Lacey, Dácio Jaegger, Catarina Cavalcante, Tocha da Paz, Idéias Literárias, Meiroca, Enio Luiz Vedovello, Jonice, Luma, Claudia, Tita Coelho, Monica Mamede, Marie, Rafael Sarmento, Fátima André, Lamire, Fábrica dos Blogs, ISM, Clandestino, Lidianne Andrade, Juca, Xico Lopes, Francy e Carlos, Lita, Dad, Pedro Fontela, Mauricio Santoro, André Wernner, X-Man, Cármen Neves, Roseanne, Bentes, André L. Soares, Tao, Lucia Freitas, Saramar, Ricardo Rayol, Luz Dourada, Maria Lagos, Wanderley Garcia, Carlos Fran, Vinicius Cabral, Xmitzx, Pat, Je vois la vie en vert, Cristiane.

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

PEDAGOGIA E AMBIENTE: CADÊ CIDADANIA?

Uma coisa que sempre me traz um sentimento de raiva e impotência é quando entro numa escola e vejo as carteiras quebradas, cadeiras mal-engendradas, mesas aos pedaços, descascadas. Pergunto: o que podem as crianças que freqüentam este ambiente aprender como perspectivas de vida? Estudei em uma escola rural, tinha apenas uma grande mesa, e bancos grandes, rústicos, de madeira serrada pelo carpinteiro do povoado. Conhecíamos a origem do banco, isso fazia uma diferença para nós, meninos e meninas de idades e desenvolvimento bem diferentes. Não havia televisão mostrando o desperdício das cidades, a destruição da vida natural. Não havia nada disso. Então nós éramos muito felizes nos bancos de madeira rústica, balançando as pernas, e estudando a tabuada para a “sabatina”. O sanitário era do lado de fora, como são na zona rural, mas eram limpos e lavados todo dia, para que a gente pudesse usar sem constrangimento. Nas escolas públicas onde tenho entrado nestes anos, continuo a ver cada vez piores as condições ambientais do alunado. Lembro quando o metrô foi inaugurado no Rio: a reação das pessoas foi e é bem diferente de entrar num trem quebrado, num ônibus sem banco, com os espaldares quebrados, ou com acento rasgado, com o chão sujo, as baratas correndo pelas janelas.... Muito diferente de entrar num ambiente limpo, com estímulo ao asseio, ao respeito ao objeto, ao veículo, à vida. É um sentimento que tenho fundo, deve ser assim para os outros humanos. O ambiente limpo, bonito, traz uma onda de prazer. Na sujeira e degradação, qual é o sentimento? Aí, vêm os ministros, secretários, diretores de departamento de educação e pensam e pensam, e formulam mil e um projetos, mas nada de resolver a questão dos ambientes da escola: aqui, em plena capital paraibana - bem como no Rio de Janeiro, São Paulo, Amazonas, Acre, (é só ir copiando as cidades do mapa) - encontramos escolas com instalações sanitárias em miséria, com salas em miséria, com corredores escuros, cadeiras quebradas, mesas escandalosamente impróprias para o uso humano. Poderiam estar melhor, poderiam estar consertadas, limpas, compor um ambiente para receber os alunos em festa no início do ano, dar a eles as boas vindas, com algo bonito, limpo, adequado. Mas é uma coisa sem fim, um mal sem limite. Não tem ministro, nem secretário que visite as escolas de repente, se visitassem sairiam mal da cabeça. Se fossem aos banheiros da escola ou sentassem por 10 minutos diante do quadro, naquelas cadeiras que vi na Aldeia Forte, e em outras aldeias indígenas, poderiam dispensar diversos projetos farjutos e investir no ambiente escolar. Tanto treinamento das professoras, e tanta falta de respeito com o ambiente onde trabalham nossas educadoras, na grande maioria mulheres, abnegadas, dispostas a tudo para melhorar o resultado de seu trabalho. Só que a responsabilidade pelo ambiente, pela adequação dos equipamentos não é delas, mas do Estado brasileiro. Onde está a coragem para tratar a questão da qualidade do ambiente educacional? Sabemos que essa situação não é privilégio do nordeste, nem das aldeias. Trabalhei 30 anos em escolas públicas do Rio de Janeiro, e quantas vezes tivemos de nos cotizar para resolver a situação de um banheiro quebrado, quantas vezes nos reuníamos para não dar aulas por absoluta falta de condições sanitárias na escola? Gente, é um escândalo isso. Não é a pobreza que fere, mas a contradição que a escola mostra. Enquanto se esbanja dinheiro em projetos faraônicos, e na ladroeira, não se resolve algo tão simples como o direito de sentar e estudar em um ambiente adequado. Não falo das metodologias, nem mesmo do absurdo pequeno salário reservado para os educadores, falo do mínimo respeito à educação, das mínimas condições de aprendizado, de estímulo à curiosidade, da desejável alegria nos olhos dos meninos quando entram na escola. Garanto que se o Estado brasileiro desse sinal de respeito aos educadores, as atitudes deles também seriam outras. Se o que vale na governança é a falta de amor, de respeito e cortesia, então a doença se espalha com facilidade, empestando o país. Gostaria de fazermos uma campanha pela dignidade do ambiente escolar, quem sabe os meninos e meninas poderão sair dali com outras idéias e ideais? Podemos tentar? Então, cada um escolha um bairro de sua cidade e vá visitar a escola pública fundamental que está pertinho de você. Se não ficar convencido, visite mais duas ou três. Vejamos o resultado desta visita que não é anunciada, nem é do secretário de educação.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

EDUCAÇÃO: depoimento de um estudante

Conhecendo o professor e terapeuta Luiz Célio, e sua atuação profissional, tomei conhecimento do artigo do jovem jornalista, publicado no seu blog, o qual, com sua autorização reproduzo aqui, com a intenção de contribuir para as reflexões sobre o tema focalizado por Ikeda, no blog: www.cadernodematerias.zip.net Luiz Célio: Bem mais que um professor; um amigo. Como muitos jornalistas fazem em suas colunas, eu venho com muita humildade falar de um educador, de um psicólogo, de um sociólogo; na verdade eu vou falar de um amigo. Nos dias atuais não é fácil encontrar educadores centrados na realidade do aluno. Mas se deparar com professores “donos da verdade” e preocupados em só reprovar e humilhar aqueles que não comungam com seus ideais individualistas não é difícil ver nos muitos corredores da educação. No entanto, a exceção salva a categoria do terrível pecado da não preparação de muitos docentes. No meio das muitas desorganizações e da pouca seriedade existentes no campus III da UEPB em Guarabira, eu procurei desde o dia em que entrei para o corpo discente da instituição, analisar e conhecer melhor os mestres do saber. Busquei entender e ser entendido e confesso que me deparei com muita gente boa e muita gente ruim. Infelizmente é assim, o joio e o trigo por enquanto andam juntos naquele lugar que chamamos de universidade. É preciso ter jogo de cintura para driblar os lances que determinadas figuras dão no campo educacional. Eu sou feliz por driblar bem, em saber fazer amigos e considerá-los no meu dia-a-dia. Quando comecei a estudar com Luiz Célio Rangel (Psicologia) eu ouvi falar muito das exigências do referido mestre. Determinados colegas me relataram temer apresentar seus seminários. E assistir às palestras de Luiz Célio para alguns estudantes era um tormento. Realmente, eu me espantei com a forma como Luiz Célio leciona. Foi totalmente o oposto do que haviam me falado ao seu respeito como professor universitário. Hoje, ainda tenho o prazer de tê-lo como instrutor nas aulas de quarta-feira, e sinto que a turma também tem crescido com as idéias construtivas do Psicólogo. Durante o seu horário, nós, podemos expressar opinião, discordar ou concordar com seus comentários, relatar experiências, em fim, temos a verdadeira liberdade de expressão. De certo, Luiz não permite gracinha durante suas aulas, a seriedade prevalece, porém, tem momentos muito engraçados entre aluno e professor que nos fazem muito bem. Outra coisa interessante, é que Luiz Célio sempre pára para ouvir nossos reclames, pelo menos é assim comigo. Eu já tive a oportunidade de conversar com o mesmo sobre vários problemas relacionados a UEPB. Isso não acontece com todos os professores do campus. Muitos deles só conhecem o aluno no recinto escolar, por isso, eu devo relatar sobre o grande profissional que sempre pára para ouvir, e está disposto a emitir opinião sobre questões apresentadas pelos discentes. Eu recordo que nos primeiros dias de aula com Célio, tivemos um certo confronto de idéias. O assunto do momento estava ligado à teologia, história e ciência, e eu sendo evangélico, dei um parecer sobre uma colocação do docente, ao mesmo tempo eu e alguns da sala fomos repreendidos cientificamente. Conhecendo um pouco da bíblia eu tinha que defender a minha fé, mas eu não queria misturar religião com ciência, que para mim tem tudo a ver. Saudades desse inicio. Foi muito bom o nosso debate. A informação que me chega é que vão transferir LC para o setor de Pedagogia. Eu já vou perder outros amigos professores pelo fim do contrato, e agora estão querendo levar outro amigo para um departamento distante do nosso. Devo reconhecer que é pela sua competência, mas a sua ausência em nossa turma não nos faz felizes. Vou terminar, dizendo que não merecemos perder o professor para o curso de Pedagogia que está em baixa na referida instituição. E o professor também não merece deixar uma turma que o considera e admira sua forma de ensinar. Eu não mereço e não posso perder esse amigo que sempre soube compreender as diferentes ideologias dos alunos. É verdade, encontrar professor independente dentro da universidade é uma tarefa difícil, e pagar os diversos conselhos e favores, não é tão fácil assim. Eu encontrei não só um professor; encontrei um amigo. //************************************* Dedico este texto ao professor Luiz Célio Rangel. Escrito por Joseilton Gomes (Ikeda) às 10h39[ 22/11/2007

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

PELA PAZ

Agradecendo a Lino o convite para participar da blogagem coletiva PELA PAZ, passo a palavra a DRUMMOND, homem que praticou a paz e que completaria nesse 31 de outubro, 105 anos. OS PACIFISTAS ******** Na Cinelândia, pela tarde,/ em bancos vulgares e amigos,/ sentam-se homens mal vestidos./ Não mostram pressa de voltar / para casa ou para o trabalho/. Sentam-se em honra de uma vida/ que vive dentro de suas vidas/ corriqueiras, pardas e tristes,/ e lá ficam a ver as pombas/ em torno à estátua de Floriano/ catando milho distribuído/ por um deus amigo das aves,/ o deus que no baixar à Terra/ preferiu o simples disfarce/ de empregado administrativo./ Bicam as pombas, esvoaçam/ por entre mármores do Teatro,/ do Museu e da Biblioteca,/ não que lhes interessem óperas,/ livros, telas, artes humanas./
Brincam as pombas: pena, cor/, lampejo entre árvores, tranqüilo/ ser-existir infenso ao trágico/ mundo que se foi modelando/ entre gritos, gagos regougos/ lágrimas, cóleras, solércias,/ à custa do mundo essencial/. Libertados de todo peso,/ deixam-se os homens / desprevenidos face às pombas./
Silenciosos e circunspectos,/ são talvez os homens melhores/ de nosso tempo assim parados./ Não pleiteam bens ou poderes / mais que o bem e o poder de um banco/ alteado no chão de pedrinhas./
Não transportam a guerra n’alma,/ não vendem ódio, não tocaiam/ nem sofismam quem tem razão/ entre sem-razões deste instante/. O vôo não viajeiro basta-lhes/ para alimento das retinas/ e, ao mirar as pombas, remiram/ uma harmonia que perdemos./ Na Cinelândia, aves e homens / redescobrem a paz, em vida./
******** Carlos Drummond de Andrade, in Seleta em Prosa e Verso, 1976 Livraria José Olympio Editora

domingo, 30 de setembro de 2007

EM VIAGEM (3)

A TRAGÉDIA Uma tragédia se abateu em Gran Canaria neste agosto 2007, enquanto estávamos ali, Fomos alertados pela notícia de fogo na reserva florestal que apenas havíamos vislumbrado do terraço do Tagoror... Vi lágrimas correrem nos olhos canários, apaixonados pelo patrimônio natural de sua pátria. Entendi depois como tudo se passou. Gran Canária é montanhosa, os vales numerosos, a reserva se concentra no centro da ilha e no verão é natural que muitas plantas secas estivessem vulneráveis ao fogo. Um louco em seu desvario riscou um único fósforo, o fogo começou em um vale, logo se formou um corredor de labaredas que se espalharam rapidamente pela reserva. Os esforços de todos os setores públicos não bastaram para deter a onda de fogo, que se transmitiu a outras ilhas, provavelmente pelo vento ou também provocado. Foram mais de vinte mil hectares queimados, cerca de 1/3 das reservas de Gran Canária, afetando 20 % dos espaços vitais, durante cinco dias. Perderam-se 30 (ou mais) espécies de fauna e flora endêmica. Ao atingir o Los Palmitos Park, um super zoológico da ilha, o fogo consumiu a maioria dos animais e vegetais, 65%. Aí, foi demais a tristeza que se abateu sobre a população das comunidades. Passado o fogo, fomos visitar as áreas afetadas: São Bartolomeu, Tejeda, Mogán, Santa Lucia e São Nicolau. Uma visão de trevas, infernal, vales queimados, cinzas por toda parte, sinais do que foi, uma dor em nós, por tanta destruição, enormes palmeiras tornadas cinza. Como assumiu o periódico ISLA 21: “É preciso que Canárias conte com os meios necessários para enfrentar uma catástrofe natural de tal porte, com total garantia de segurança. ... com os montes ardendo em Gran Canária, Tenerife e La Gomera, ficou patente a falta de meios contra incêncio para uma atuação mais rápida, onde se produza o incêndio. Tenhamos em conta que o tempo transcorrido entre a tomada de decisões e o traslado dos meios pertinentes da Península é decisivo e pode ser fundamental na hora das determinações” “Vêm à nossa memória, inevitavelmente, aqueles antigos “camineros” que andavam por nossos montes e eram encarregados de velar pela sua conservação e limpeza. Agora uma política ecologista mal encaminhada e desacertada, tendendo a uma superproteção de nossos montes, está contribuindo para materializar justamente aquilo contra o que se lutava. Como sempre, temos a triste sensação de que sobram autoridades, mas faltam responsabilidades. LÁ COMO AQUI : LEMBRAR DO QUE OCORRE NA AMAZONIA, NO CARIRI, OU NAS RESERVAS INDÍGENAS.